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Resumo
Este trabalho pretende abordar os movimentos recepcionais das obras de Elias Canetti no Brasil, e seus processos de apropriação pelas Humani- dades ora como objeto, ora como referencial teórico, ora como ilustração, reportando a importante contribuição de seus escritos autobiográficos como campo de estudo dos processos (auto)formativos. Do ponto de vista metodológico, para a elaboração deste artigo, foi desenvolvido um levantamento das entradas de nosso autor nos principais bancos de dados nacionais, este levantamento foi organizado tendo em vista as categorias de Apropriação Incidental, Apropriação Conceitual Tópica, Apropriação do Modo de Trabalho e Apropriação de Conteúdo. Em sua faceta teórica este artigo se aproxima do conceito chartieriano de apropriação, que procura lançar uma luz aos processos pelos quais os sentidos são produzidos e, em seguida, apropriados nas Humanidades. No caso específico de Canetti, é a que nos permite ver como este autor foi e está sendo lido nos espaços acadêmicos brasileiros, apontando os modos como os textos canettianos estão sendo lidos, utilizados como categorias de análise ou funcionado como operadores para interpretações no campo das artes, da literatura, das ciências humanas e da educação.
Palavras-Chave: Pesquisa Autobiográfica, Elias Canetti, Apropriação,
Recepção.
Abstract
This research article addresses the flow of readers’ reception of Elias Ca- netti’s work in Brazil and its appropriation processes by Human Sciences be it as an object of study, as a theoretical framework, or as an illustration, revealing the important contribution of his autobiographical writings as a
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Recibido: 12 de octubre de 2014. Aceptado: 13 de diciembre de 2014.
Uma primeira versão deste texto foi apresentado como comunicação de pesquisa no VIº Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica, com o título Movimentos de Recepção: sobre a apropriação de Elias Canetti no Brasil.
field of study on (self-)formation processes. In regards to methodology, in order to produce this research article a survey of entries on this author was conducted on the main national databases. This survey was undertaken focusing on categories like Incidental Appropriation, Topic Conceptual Ap- propriation, Work Method Appropriation, and Content Appropriation. In its theoretical aspect this research article approaches the Charterian concept of appropriation, which intends to shed a light on the processes through which meanings are unfolded and, subsequently, appropriated by Human Sciences. In this particular case involving Canetti, this concept allows us to see how the author was and is being read in Brazilian academic milieus, indicating the ways that Canetti’s texts are being read and used as analysis categories or functioning as facilitators for interpretation in areas such as the Arts, Literature, Human Sciences and Education.
Keywords: Autobiographical Research, Elias Canetti, Appropriation, Reception, Readers Reception.
Elias Canetti nasceu em 1905, na cida- de Ruschuk, hoje Ruse, na região nordes- te da Bulgária, a 300 km da Capital Sófia, no lado direito do rio Danúbio, na fronteira com a Romênia. Viveu em Londres, Vie- na, Frankfurt e Zurique se reduzirmos bastante o trânsito transnacional desse sujeito para quem o termo cosmopolita se justifica. Judeu sefardita4, teve como idioma materno o Ladino5, sendo o búl- garo sua segunda língua e o alemão sua língua de expressão intelectual, dentre outros idiomas que aprenderá nos 32 anos cobertos por seus textos autobiográficos: A Língua Absolvida (2010a), Uma Luz em Meu Ouvido (2010b), O Jogo dos Olhos (2010c). Morreu em Zurique em 1994, tre- ze anos após ser laureado com o prêmio Nobel de literatura.
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Os sefarditas foram os judeus expulsos da península ibérica no final do século XV , que se dispersaram por toda Europa e América, mas, sobretudo, encontraram acolhida no Império Otomano, ao qual pertencia a Bulgária até 1908, quando proclamou sua independência (KENIG, 1995; BRAVO, 2012).
Idioma dos sefarditas em diáspora, muito se- melhante ao Castelhano, cujo vocabulário se completava pelo uso de palavras francesas, turcas, romenas, alemãs entre outros idiomas, porém ladinizadas.
A recepção dos textos de Elias Ca- netti no Brasil se dá por conta das tra- duções6 desenvolvidas por ocasião de sua premiação com o Nobel em 1981, um fenômeno pós-Nobel como nos diz Irene Aron (1994a). Entre 1982 e 1990 são publicados os livros Auto-de-fé (em 1982, editado originalmente pela Nova Fronteira e atualmente pela CosacNaify), Massa e Poder (em 1983, editado origi- nalmente pela EdUNB/Melhoramentos e atualmente pela Companhia das Letras), A Língua Absolvida (primeiro volume de sua trilogia autobiográfica, em 1987, pela Companhia das Letras que, junto com os outros dois volumes de sua trilogia auto- biográfica, encontra-se atualmente em sua coleção de bolso, a Companhia de Bolso), As Vozes de Marrakech (em 1987, pela Editora L&PM e atualmente pela
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Seus nove tradutores no Brasil são Markus Lasch (Festa sob as Bombas), Kristina Michahelles (Sobre os Escritores), Rita Rios (Sobre a Morte), Samuel Titan Jr (Vozes de Marrakech – Cosac- Naify, Hebel e Kafka), Marijane Lisboa (Vozes de Marrakesh – L&PM), Ruth Röll (Canetti: o teatro terrível), Sérgio Telarolli (Massa e Poder, Jogo dos Olhos), Kurt Jahn (A Língua Absolvida, Uma Luz em Meu Ouvido) e Herbert Caro (Auto-de-fé - Nova Fronteira e CosacNaify-, O Outro Processo: As cartas de Kafka a Felice e A Consciência das Palavras, este último com Márcio Suzuki).
CosacNaify), Uma Luz em Meu Ouvido (segundo volume de sua trilogia autobio- gráfica, em 1988, pela Companhia das Letras e atualmente pelo selo Companhia de Bolso), O Outro Processo: As cartas de Kafka a Felice (em 1988, pela editora Es- paço e Tempo, esgotado e sem reedição, mas presente em A Consciência das Palavras como capítulo), O Todo-Ouvidos (em 1989, pela editora Espaço e Tempo, também sem reedição), A Consciência das Palavras (em 1990, pela Companhia das Letras, atualmente em sua coleção de bolso) e O Jogo dos Olhos (último volume de sua trilogia autobiográfica, em 1990, pela Companhia das Letras e atualmente pela Companhia de Bolso).
Após um interregno de uma década sem novos eventos editoriais, ocorre a publicação da coletânea Canetti: o teatro terrível (em 2000, pela editora Perspec- tiva), com três peças do autor: O Casa- mento, Comédia da Vaidade e Os que têm Hora Marcada; e no ano de 2009 ocorre a publicação de três títulos do autor: Festa Sob as Bombas e Sobre a Morte (ambos editados pela Editora Estação Liberdade) e Sobre os Escritores (Editora José Olym- pio). Além de seus livros houve, isolada- mente, no Cadernos CEBRAP, nº. 72, de 2005, a publicação da conferência Hebel e Kafka, proferida por ocasião do recebi- mento do prêmio Johann Peter Hebel e publicada como adendo a O Almanaque de Johann Peter Hebel (2005).
Nos anos de 1980 Canetti foi inicialmen- te publicado pela Nova Fronteira, editora pertencente ao grupo Ediouro, que fez as primeiras edições de Auto-de-fé no início da década (a tradução feita por Herbert Caro é a mesma reeditada pela CosacNai- fy recentemente); pela L&PM, editora con- tracultural do fim dos anos 1970, depois convertida em importante editora de livros de bolso; pela Espaço e Tempo, pequena editora carioca de produção não contínua, recentemente fundida com a Garamond; e a EdUNB/Melhoramentos, parceria da Editora da Universidade de Brasília com a distribuidora e editora de livros didáticos
Melhoramentos. Os quatro grupos edito- riais perderam direitos de publicação, que foram adquiridos por outras editoras (é o caso de Vozes de Marrakech, Auto-de-fé e O Outro Processo: Cartas de Kafka a Feli- ce) ou mudaram seu ramo editorial, como a Espaço e Tempo, passando a ocupar-se de publicações mais rentáveis comercial- mente. O Todo-Ouvidos não despertou novo interesse editorial (e comercial) e permanece esgotado.
Dentre as atuais casas editoriais de Canetti no Brasil estão desde a prestigio- sa Companhia das Letras; a CosacNaify, editora de volumes luxuosos e caros, com ampla distribuição nacional; e a Estação Liberdade, pequena editora paulista, com distribuição incerta, mas com edição cuidadosa; e a Perspectiva, importante editora acadêmica, uma das poucas edito- ras comerciais a ter um conselho editorial formado por professores universitários.
A diferença na inscrição editorial de suas obras no país está marcada pela edição de uma conferência na revista do Centro Brasileiro de Análise e Planeja- mento (CEBRAP), muito conhecido por ser fundado por intelectuais da Universi- dade de São Paulo por ocasião de seus “jubilamentos” compulsórios pelo regime ditatorial instalado no país a partir de 1964. É uma edição caracterizada pelo não inte- resse comercial pela obra, já que se trata de uma revista de divulgação científica e por seu texto servir de ilustração ao comentário e tradução feitos por Samuel Titan Jr de um texto de Hebel.
A partir deste pequeno sobrevoo sobre a edição de Canetti no Brasil podemos perceber como seus textos foram desde o momento de sua “descoberta” pós-Nobel, publicados com frequência e qualidade, tanto seus textos mais célebres como conferências e ensaios obscuros, o que permitiu sua leitura por várias gerações e regiões do país, notadamente, com certa vantagem para aqueles localizados nos estados do sudeste, sul e da capital federal, beneficiados pela concentração
das editoras em seus estados e pela distribuição sem maiores entraves para as livrarias – fato só minimizado após o surgimento do comércio eletrônico de livros. Mas isto não significa dizer que ele seja bem editado, como ocorre na Espanha, na Alemanha e nos Estados Unidos, onde existem edições completas do autor ora em estudo.
A localização histórica da recepção de Elias Canetti no Brasil não destoa de sua recepção no restante do mundo, que só se popularizou por causa de sua láurea pela Academia Sueca, como anota Irene Aron (1994) em seu artigo sobre o autor, no qual indica como a recepção dele ao redor do mundo sempre foi difícil, com muitos reve- zes, e mesmo em língua alemã o autor só era reconhecido pelo que havia escrito até 1938, um romance, Auto-de-Fé (1982) e as peças de teatro O Casamento e Comédia da Vaidade (2000), recebidos de forma negativa e reticentes como as críticas diri- gidas a ele por Hans Magnus Eisenberger e Marcel Reich-Ranick, que qualificaram o livro Auto-de-Fé como insuportável e monstruoso (apud ARON, 1994, p. 157).
Se, parte de seu desconhecimento pode ser creditado à dificuldade imediata que seus livros podem despertar num leitor neófito, à sua conhecida reclusão e modéstia – no sentido de não buscar o espaço da autopromoção e deixar que seus livros falem por ele. Outra parte, muito significativa, pode ser creditada à consciência dos efeitos que seus escritos, sobretudo suas autobiografias, poderiam provocar nos personagens ali retratados, além de retardar ao máximo a publicação de seus escritos autobiográficos, até o ponto em que três deles recebessem de- dicatórias póstumas nos três volumes de suas memórias (ao irmão mais novo e as suas duas esposas), proibiu a publicação imediatamente após seu falecimento de seus diários e espólio intelectual, que só serão abertos em 2024, trinta anos após sua morte (OJEDA, 2012); e proibiu a publicação de sua autobiografia no Reino Unido, mesmo após sua consagração com
o prêmio Nobel de literatura (THE ECO- NOMIST, 31 de março de 1982) – quem leu A Língua Absolvida sabe que não é elogiosa sua relação com o lado “inglês” da família, cujos retratos são coloridos pelo rancor – e seu editor americano, à época, em resposta aos questionamentos da revista diz: “Canetti não quer sua auto- biografia publicada na Grã-Bretanha. Ele não vai falar sobre isso, mas não quer isto, e isto é definitivo7” (THE ECONOMIST, 31 de março de 1982).
Retomando o objetivo central deste artigo, no Brasil, a leitura de nosso autor aumenta conforme suas edições vão se tornando frequentes e o interesse acadê- mico por seus textos, mesmo que modes- to, apresenta um panorama de como ele foi – ou pode - ser lido nas últimas déca- das nas universidades brasileiras. Para a elaboração deste artigo foi desenvolvido um levantamento das entradas8 de nosso autor nos principais bancos de dados na- cionais9, este levantamento foi organizado
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“Canetti does not want his autobiography pub- lished in Britain. He will not talk about it, but he does not want it and that is final” [Tradução Nossa]. Devo este fragmento, e mais um outro, da revista The Economist, ao leitor K. Liepmann que, diligentemente, guardou-os em seu volume de Die Fackel Im Ohr (1980), que pude (re) encontrar num sebo paulistano em 2012.
Foram utilizados os seguintes descritores: Ca- netti, Elias Canetti, Veza Canetti, Musil, James Joyce, Karl Kraus, Hermann Broch, Língua Absolvida, Jogo dos Olhos, Uma luz em meu ouvido, romance de formação, bildungsroman, romance autobiográfico, autobiografia, Canetti Bulgária, Canetti Massa, Canetti Metamorfose, Canetti Kafka, Canetti autobiografia, Canetti lite- ratura alemã, memória de leitura e combinações entre estes descritores.
O Levantamento foi feito na biblioteca da Facul- dade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), no acervo da CCS/EDUSP, no Banco de Teses da CAPES, no sistema BIBinet USP, no Catálogo Athena da Universidade Estadual Paulista – Júlio de Mesquita Filho (UNESP), no portal SBU Univer- sidade Estadual de Campinas (UNICAMP), na Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no banco de teses da
em um quadro orientado pelas categorias desenvolvidas por Catani, Catani e Pereira (2001), que procuraram compreender as diversas formas de apropriação de Pierre Bourdieu no Brasil, acrescentada de uma categoria construída tendo em vista a especificidade deste trabalho.
Por apropriação, no contexto deste artigo, e distanciando-me um pouco do conceito de apropriação hermenêutico, para a qual apropriação é uma forma de compreensão de si a partir do texto (RI- COEUR, 2011, p.64) e - de forma não ex- cludente do que já foi dito, antes atuando de forma complementar – exclusivamente na execução deste levantamento, tomarei o conceito desenvolvido por Roger Char- tier (1990) como norte, quando afirma que:
A apropriação, tal como a enten- demos, tem por objetivo uma história social das interpretações, remetidas para as suas determinações funda- mentais (que são sociais, institucio- nais, culturais) e inscritas nas práti- cas específicas que as produzem. Conceder deste modo atenção às condições e aos processos que, muito concretamente, determinam as operações de construção de sentido (na relação de leitura, mas em muitas outras também) é reconhecer, contra a antiga história intelectual, que as inteligências não são desencarna- das, e, contra as correntes de pensa- mento que postulam o universal, que as categorias aparentemente mais invariáveis devem ser construídas na descontinuidade das trajectórias his- tóricas (CHARTIER, 1990, p. 26-7).
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PUC-Rio, no portal Scielo, no portal Pepsic, nos anais da ABRALIC, nos anais da ANPOLL, nos anais da ABRAPLIP, no anais da ANPED, nos anais da ANPUH, no indexador da Plataforma SEER, Periódicos CAPES, na plataforma SEER da Revista Brasileira de História da Educação, na Biblioteca da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), na Biblioteca da Universidade Federal da Bahia (UFBA); e no Katalog der Bibliotheken do Goethe-Institut do Brasil. No período de se- tembro de 2012 a maio de 2013.
A apropriação que nos interessa res- saltar é a que nos permite ver como este autor foi e está sendo lido nos espaços acadêmicos brasileiros, por isso procura- remos apontar os modos como os textos canettianos estão sendo lidos, utilizados como categorias de análise ou funcionado como operadores para interpretações no campo das artes, da literatura, das ciên- cias humanas e da educação.
Foram levantados 41 (quarenta e um) textos nos quais aparecem citados os trabalhos de Canetti em maior ou menor intensidade. Desse total 8 (oito) são artigos, 8 (oito) comunicações em congressos, encontros e colóquios, 14 teses de doutoramento e 11 dissertações de mestrado. A instituição brasileira em que nosso autor foi mais estudado é a Universidade de São Paulo, responsável por 20 (vinte) trabalhos desenvolvidos, entre artigos, comunicações, teses e dissertações. O que se explica pelo fato da edição dos textos de nosso autor, bem como sua circulação, nos primeiros anos de sua publicação nacional, estar circuns- crito geograficamente ao sudeste do país, centralizando assim seu estudo na maior e mais influente universidade da região.
Do estudo de Catani, Catani e Pereira (2001, p 65) emergem três das categorias utilizadas no desenvolvimento deste artigo: Apropriação Incidental (AI), Apropriação Conceitual Tópica (ACT), Apropriação do Modo de Trabalho (AMT). Elaboro, tam- bém, para o desenvolvimento do trabalho com Elias Canetti mais uma categoria, a Apropriação de Conteúdo (AC), cuja expli- cação encontra-se mais abaixo.
A Apropriação Incidental se caracteriza por apresentar referências rápidas ao texto do autor, por arrolamento de seus títulos nas referências bibliográficas, sem citação no corpo do texto; e por menção em nota de rodapé explicativa ou em meio a outros autores que eventualmen- te se ocupem da mesma temática. “Nas apropriações incidentais não é possível estabelecer relação entre a argumentação
empreendida no texto e a referência, ou então a menção guarda relação muito tênue com o argumento desenvolvido” (CATANI; CATANI; PEREIRA, 2001, p. 65)
Dos textos classificados 48,7% integram
esta categoria.
A Apropriação Conceitual Tópica caracteriza-se pelo uso pontual de ci- tações ou conceitos do autor para validar argumentações e o desenvolvimento de algum resultado, ampliando o quadro de referência do estudo desenvolvido. Dos textos classificados 24,3% estão sistema- tizados nesta categoria.
A Apropriação do Modo de Trabalho caracteriza-se por formas de apropriação mais complexas que apontem o uso de metodologias, noções e conceitos do autor, de forma sistemática, como no caso do conceito de massa utilizado em dois textos identificados nesta categoria, perfazendo o percentual de 4,8% do total de textos levantados.
A Apropriação de Conteúdo, a única categoria desenvolvida especialmente para este estudo, integram os textos que utilizam a obra de nosso autor como objeto de pesquisa, apropriando-se não apenas de conceitos, mas do próprio material es- crito para desenvolver análises textuais, culturais, sociológicas, psicológicas, políti- cas e educacionais. Dos textos levantados 21,9% enquadram-se nesta categoria.
Os trabalhos identificados na categoria Apropriação Incidental (AI) apresentam, por sua natureza pragmática e pontual, pouco material para o trabalho de análise. Aparecem, quase sempre, em notas de rodapé, em enumerações de autores que trabalham temas comuns ou pontualmente como alusão a algum conceito abordado, mas que não será objeto de estudo corren- te pelo autor do texto. Figuram como uma espécie de prestação de contas, na qual se informa aos leitores que determinada leitura sobre determinado tema foi feita, porém não será usado de forma extensa no desenvolvimento do relatório/ensaio/ artigo/comunicação do estudo.
Uma dificuldade na construção deste tipo de categoria é que, como os textos citados não possuem representatividade no corpo da produção, acabam por não entrar no resumo, dificultando sua identifi- cação junto aos indexadores de pesquisa, buscadores, arquivos e bibliotecas. É preciso entrar no trabalho e procurar a partir de algum indício, quase sempre, de forma derivada (em artigos resultantes de teses e dissertações) ou insistindo em ca- tegorias alternativas àquelas pretendidas inicialmente. É um trabalho de insistência.
Dos textos levantados sob o signo da Apropriação Incidental, a maioria, apre- senta um interesse pontual por Massa e Poder, seja em trabalhos que abordem a questão do trabalho operário e a repres- são no período da Era Vargas; seja em um debate sobre estética e filosofia, o que aponta os extremos de tratamento possí- veis dos estudos políticos de Canetti. Há, também, citações de A Língua Absolvida, A Consciência das Palavras – em uma edição alemã, O Outro Processo: cartas de Kafka a Felice, Auto-de-Fé, Uma luz em meu Ouvido e Vozes de Marrakech.
Um elemento que foge a este contexto de uso das citações pode ser encontrado em duas comunicações que não citam nenhum texto do autor, mas mencionam- no em meio a outros autores que expe- rimentaram a migração como fenômeno de seu tempo, ou que foram impelidos a diáspora por conta de sua condição judaica (AGUSTIN, 2008; RAONI, 2008),
como no trecho a seguir:
Isso pode ser identificado no en- volvimento que levou o povo judeu a traduzir suas tradições religiosas e éticas, mediante a criação de gêneros textuais, os quais revelam a pluralida- de de faces assumidas pela identidade judaica ao longo dos últimos dois mil anos: A Bíblia, comentários teológi- cos e filosóficos sobre a fé hebraica, a Cabala, narrativas épicas, poesia sacra e profana. Com base nessa identidade cultural, sintomatizada em
vários gêneros textuais, inúmeros escritores criativos judeus deram valio- sas contribuições às várias literaturas dos diferentes países em que foram acolhidos em meio à Diáspora, nos quais nasceram e construíram suas existências. Assim, torna-se oportuno mencionar autores judeus significati- vos como Heine, Franz Kafka, Samuel Usque, Philip Roth, Primo Levy, Be- llow, Malamud, Wasserman, Babel, Agnon, Aguinis, Bashevis Singer, Elias Canetti, Moacyr Scliar, Samuel Rawett, Clarice Lispector, dentre ou- tros (RAONI, 2008, p.2).
Talvez, mais do que qualquer outra apropriação intelectual da obra de Canetti seja o fato deste ser percebido como sujei- to de algum lugar, mesmo que este “lugar” seja o transitório entrelugar da diáspora judaica pelo mundo, que torne a menção dele em meio a outros autores de expres- são judaica importante, já que este viveu toda uma vida de trânsito pelas nacionali- dades, convertendo-se em um sujeito das cidades por que passou, que pertenceu mais a Zurique, a Viena, a Londres que a seus respectivos estados-nação. De sujeito que viveu a margem da nação e se inscreveu na Nation (BHABHA, 2010,
p. 385) dos exilados deliberadamente. É uma forma de começar a localizar o sujeito que, se não pertencer a algum lugar, pode desaparecer.
Os textos reunidos sob a etiqueta da Apropriação Conceitual Tópica (ACT) formam um conjunto bem significativo do processo de apropriação de Canetti nas universidades brasileiras, apresentando o uso de conceitos e representações desen- volvidas pelo autor em cinco de suas obras mais conhecidas: A Língua Absolvida, O Outro Processo: cartas de Kafka a Felice, Vozes de Marrakech, Massa e Poder e A Consciência das Palavras. E ampliam as investidas sobre a produção canettiana para além do mero arrolamento ou do uso pontual, inserindo-o como elemento de análise dos produtos acadêmicos desenvolvidos, seja dissertação, tese ou
comunicação. Abordarei as produções de acordo com a sua concentração em uma determinada obra, dentre as mencionadas acima neste mesmo parágrafo.
O texto A Língua Absolvida aparece em lugar familiar para o trabalho com este título de Canetti no Brasil, A Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), pois este livro é objeto de trabalho nesta faculdade há quase três décadas, e orbita a atuação de docentes que, de alguma maneira, foram influen- ciados pela escrita de Denice Catani sobre o autor, em seu artigo Pedagogia e Museificação (1990-1991), texto inaugural do interesse canettiano no país.
Aguiar (2010) inicia sua abordagem do texto canettiano, justamente, falando da proposição de leitura do livro numa disciplina da FEUSP
No início dos anos 90 do século passado, durante o meu curso de licenciatura em Língua Portuguesa, na Faculdade de Educação da USP, ouvi falar pela primeira vez de um livro chamado A Língua Absolvida, de Elias Canetti, um escritor búlga- ro que passou um período de sua adolescência na Suíça por conta da Primeira Guerra Mundial. O título era maravilhoso e causava em mim qualquer coisa de profundo, mágico, trágico. Tanto que rapidamente fui buscar um exemplar na biblioteca da faculdade e passei a percorrer suas páginas com uma curiosidade faminta, desejosa de palavras que o livro tinha a me presentear.
Descobri, então, que se tratava de um texto autobiográfico. E seu teor revelava a intensa relação de amor que o autor nutre com a sua língua (materna?). Mas não só. A questão é que não sabia dizer o que havia a mais; só que isso não tinha importância. A Língua Absolvida de Canetti tinha marcado a minha pró- pria língua e isso me bastava como leitora naquele momento (p. 258).
É importante ressaltar que este relato de leitura não é fruto de um memorial inicial da tese, mas como um introito aos resul- tados de sua pesquisa de doutoramento, nos quais se debate as representações do menino autor epistolar como exemplos da escrita escolar e da condição autoral neste contexto, no qual são tecidas críticas aos processos escolarizantes que retiram do sujeito a possibilidade de experimentar, a não ser pela leitura da experiência de outrem (é um excesso, no qual a autora força por demais as situações vividas por Canetti, a maioria delas não aprendidas nem incentivadas pela escola, como pro- cessos vividos no ambiente escolar. É o caso das cartas escritas à mãe ou dos in- teresses literários e estéticos, muito mais fruto de sua relação com as moradoras de sua pensão, de descobertas individuais e do legado parental).
O título O Outro Processo: cartas de Kafka a Felice aparece também em um único e óbvio uso na comunicação Lingua- gem, Pensamento, Escrita e Existência
– um breve estudo sobre as narrativas animalistas de Kafka (ALMEIDA, 2013), no qual se discute a questão da fala, da linguagem e do pensamento na relação entre os sujeitos e a influência destes processos na construção das identidades. Kafka é o pano de fundo para este debate. Curiosamente, apesar de inscrever esta abordagem sob o signo da Apropriação Conceitual Tópica, preciso alertar o leitor de que há certa arbitrariedade nesta clas- sificação, pois a autora utiliza Canetti mais como apud, do que como objeto concei- tual a ser trabalhado em seu estudo. No entanto, o mantive aqui por perceber que quase todas as citações indiretas do texto de Kafka apontavam, antes ou depois de sua inserção textual, para uma indicação de como nosso autor leu o autor de A Metamorfose a partir de suas epístolas à sua pretendente, Felice Bauer.
De modo diferente do apresentado na categoria Apropriação Incidental, quando apareciam em enumerações, as citações de Massa e Poder aparecem agora de
forma mais extensas e com localizações precisas de seu uso como elemento de comparação com outros autores que trabalharam nas Ciências Humanas, com os conceitos chave presentes no título canettiano. Diferente das abordagens anteriores, estas revelam certa localização e descaracterização do projeto canettiano de crítica à manipulação dos coletivos humanos, como sendo um projeto me- nor, seja na comparação com teóricos de ofício, que dedicaram mais de uma obra e a própria carreira ao conceito de Poder, como no caso de Michel Foucault (RIBEI- RO, 2000). Ou no caso mais evidente de descaracterização do projeto canettiano, a tentativa feita por Gustavo Oliveira (2010,
p. 12) de trabalhar Canetti em termos opo- sitivos aos estudos dos comportamentos coletivos, da psicologia, que ele acredita ser imaginativo, pouco sistemático e não muito bem documentado, ignorando o caráter ensaístico do texto Massa e Poder (2011).
Já a abordagem feita do texto Vozes de Marrakech pelos dois textos identificados, A Propaganda Política do Islamismo Xiita (GAULAND, 2007) e Aprender pela Arte a Arte de Narrar: educação estética e artística na formação de contadores de histórias (ROCHA, 2010), ambas teses de doutoramento na Escola de Comu- nicações e Arte da USP, apontam usos distintos do mesmo receituário. Gauland (2007) utiliza das imagens construídas pelo autor viajante em sua estadia num país de cultura islâmica – o Marrocos – para discutir a representação orientalista construída no ocidente, que circunscreve territorialmente o outro, indicando-lhe o lugar de pertencimento ao exótico, ao diferente de “nós”, sistematizado por Ed- ward W. Said em O Orientalismo (1990). E o texto de Rocha (2010) que, tomando as imagens dos contadores beduínos do deserto marroquino, propõe uma aproxi- mação identificadora com fenômeno semelhante em todo o mundo, que é do contador público de história, este que frequenta as feiras nas periferias de todo
globo, de Cabul a Caruaru, e que começa a se tornar raro.
Enfim, a discussão da categoria Apro- priação Conceitual Tópica pode ser fecha- da com a identificação de quatro textos que fazem uso do volume de artigos, conferên- cias e ensaios A Consciência das Palavras, a saber, Santana (2008) que debate o texto de Canetti a partir dos estudos de Cláudio Magris; Ardans-Bonifacino (1996; 2001), que aborda juntamente com a leitura de Massa e Poder (2011) o conceito de Me- tamorfose; e Fantin (2008) que o aborda no debate sobre a narrativa. É importante ressaltar que estas quatro apropriações tem como objeto de trabalho uma mesma conferência, O Ofício do Poeta.
A categoria Apropriação do Modo de trabalho, pretende evidenciar “apro- priações reveladoras da utilização siste- mática de noções e conceitos do autor [...], bem como mostram preocupação central com o modus operandi da teoria” (CATANI; CATANI; PEREIRA, 2001, p. 65),
foram identificados apenas dois textos: a dissertação Massa e Humanização: de Canetti a Sloterdijk (MARTINS, 2009) e a tese Povo, Massa e Multidões nos Con- tratos de Comunicação do Jornal Última Hora (PASSOS, 2009).
Para Martins (2009) a comparação de Canetti a Sloterdijk provoca o contrate de suas concepções de Massa distintas, as quais ele qualifica como homogênea, monocolorida, negro para ser fiel à dis- sertação, desenvolvida por Canetti em seu livro; e uma concepção mais líquida, uma aglomeração mais colorida e pós- moderna, defendida, segundo ele, por Sloterdijk (MARTINS, 2009, p. 17-40).
Já o texto de Passos (2009, p. 71-108) faz um resumo do conceito de Massa presente no livro de Canetti e seus desdo- bramentos explicativos, servindo-se aqui e acolá do auxílio de textos de Antonio Negri e Gabriel Tarde na caracterização dos
Ambos os textos utilizam o conceito de massa canettiano, não ultrapassam este uso que, mesmo extenso, não se expande para outros livros nos quais o conceito é comentado, resumido, apre- ciado pelo autor (CANETTI, 2008; 2010b; 2010c; 2011; 2013), configurando-se de fato um modo de apropriação apenas do conceito de massa, observando, no co- tejo com outros e na contraposição com perspectivas contemporâneas do estudo, a pertinência do conceito canettiano para os estudos das multidões humanas nos tempos hodiernos.
Os textos aglutinados sob a categoria Apropriação de Conteúdo dizem respeito a estudos sistemáticos dedicados ao autor, uma de suas obras ou conjunto de obras, cujo produto final deixa entrever mais do que uma resenha ou resumo do autor, mas sua inserção como filtro de análise de problemas sociais, culturais, filosóficos, estéticos, políticos e educacionais. Este tipo de estudo, muito comum em campos como a filosofia, as artes e os estudos literários, ganhou contemporaneamente a concorrência das Ciências Humanas na apropriação das narrativas ficcionais como campo empírico de suas investigações. Escolhi apresentá-los por campo, pois alguma estabilidade pode ser observada, são eles a Educação, os Estudos Literá- rios e a Psicologia.
No campo da Educação, como já foi dito anteriormente em outros momentos neste texto, as apropriações de Elias Ca- netti estão marcadas pela leitura inaugural de Catani (1990-1991) sobre o primeiro volume de sua autobiografia, A Língua Ab- solvida (2010a). Este foi o primeiro artigo a ser publicado sobre nosso autor em um periódico acadêmico brasileiro e por uma professora de uma universidade brasileira (existia uma recepção jornalística, curiosa do Prêmio Nobel de Literatura, de sua reclusão e até sobre seus casamentos10).
eventos de massa na contemporaneidade
e sua expressão no jornalismo impresso do jornal Última Hora.
Especialmente nos Jornais O Estado de São
Paulo e Folha de São Paulo, na década de 1980 e início dos anos 1990.
Neste texto expõe a autora, à luz dos exemplos canettianos, críticas ao proces- so formativo e do trabalho do professor, para o qual se exige racionalidade e objetividade, deixando à margem a criati- vidade, a fruição e a imaginação presen- tes na atuação de personagens como o professor Witz, sujeito da instabilidade e, por isso, atraente aos olhos do jovem Elias; convoca seus leitores a pensar a multiplicidade de sentidos impressos no tema da formação e a pensar a escola como espaço em que comportamentos se homogeneízam ao mesmo tempo em que abre espaço para a diferença; amplia suas críticas ao universo pedagógico percebendo-o como espaço que excluí o que desconcerta e o que é inesperado:
[…] a pedagogia agarrada à ilusão dos controles justifica-se elaborando o discurso do “museu”: classifica e organiza, isola e dirige o olhar, além de imprimir os folhetos que ensinam a percorrer os conhecimentos sele- cionados como dignos, destituídos do seu “poder de sedução e inquie- tação” (CATANI, 1990-1991, p. 26).
E propõe a leitura de A Língua Absolvi- da (2010a) como leitura provocativa aos temas da educação, bem como para o uso de textos não pedagógicos no desenvol- vimento dos debates sobre o fenômeno educacional.
Este texto, além de inaugurar a apro- priação do autor provocou a abertura dos estudos sobre o autor na Faculdade de Educação USP, como pode relatar Aguiar (2010) sobre as leituras feitas, nesta instituição, do referido autor, nos cursos de licenciatura e de pedagogia e, diretamente, influenciou a escrita de outro texto identificado na categoria AC: A Língua Absolvida: uma especulação para a formação de professores (1998), de Marilda da Silva, que informa em nota ser o artigo uma produção para a disciplina Docência, Memória e Gênero, oferecida pelo programa de pós-graduação em educação da FEUSP.
O texto de Silva (1998, p. 51), informa a autora, não está dando continuidade ao texto de Denice Catani (1990-1991), mas aproveitando alternativas apresen- tadas no referido artigo; e discrimina as representações de professor no texto de Canetti (2010a) como proposições ques- tionadoras dos valores impressos em uma cultura didática (em linhas gerais o artigo pouco avança em relação ao de Catani, deixando evidente no excesso de citações e em considerações que pouco se apar- tam das apresentadas em Pedagogia e Museificação, seu caráter pragmático de exercício didático de disciplina de pós- graduação que foi publicado).
Somente 19 anos após a publicação do texto de Denice Catani (1990-1991) é que teremos, em Educação, outra apro- priação de Elias Canetti, mais uma vez de A Língua Absolvida, oriunda de um debate metodológico do qual emergirá uma re- flexão sobre o uso da autobiografia como fonte para o estudo histórico-educacional (OSINSKI, 2011).
No texto de Osinski não aparecem citações de Catani nem das fontes uti- lizadas por estas na elaboração de seu artigo, há outras filiações teóricas – e mais recentes – que, no entanto, aproxi- mam a autora dos escritos desenvolvidos no campo da pesquisa (Auto)biográfica no país, como Benjamin (1994), Pollak (1992), Frago (1999) dentre outros para o desenvolvimento das discussões sobre narrativa, memória e literatura (OSINSKI, 2011). Este trabalho propõe observar na autobiografia de Canetti seu processo formativo como intelectual no início do século XX e de como estes processos são indissociáveis da vida do sujeito.
Nos três textos não há indicação de que as produções são fruto de estudos mais verticalizados sobre nosso autor, como tese, dissertação ou monografia. Exceto Marilda da Silva (1998) que aponta sua inscrição na produção final para uma disciplina de um curso de pós–graduação. Esta constatação nos informa da precariedade dos, assim
chamarei, estudos canettianos no campo da educação brasileira, que encontraram vazão em produções pontuais nas últimas três décadas, com interregnos de quase dez anos entre suas entradas, o que poderia significar uma falta de interesse no estudo do autor de Auto-de-Fé, caso outros campos de conhecimento não se interessassem também pelo complexo emaranhado, misto de memória, romance e ensaios que carac- terizam a produção de Elias Canetti.
No campo dos Estudos Literários é preciso ressaltar o trabalho de divul- gação do autor perpetrado por Irene Aron (1994a; 1994b; 1995) junto à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/ USP). A autora publica no início textos no formato de comunicação durante a Semana de Literatura Alemã, Auto-de-Fé (1994b) e Elias Canetti: testemunho de um sobrevivente (1995), textos que informam, respectivamente, sobre a importância da leitura do romance e da autobiografia de Canetti, tratam-se mais de textos informa- tivos que de análise, o que não é o caso de Elias Canetti: um destino judaico (1994a), publicado pela Revista USP.
Neste artigo (1994a), ela oferece ao lei- tor importantes questões sobre a recepção canettiana na Alemanha (e nos países de expressão germânica), na Inglaterra e Estados Unidos e no Brasil, reforçando a representação de nosso autor como um personagem da diáspora judaica, exemplo de sujeito cosmopolita e autor de expres- são alemã (isso pode parecer estranho de se dizer de um autor de língua alemã, mas Canetti demorou em ser reconhecido como autor de língua alemã justamente por seu trânsito transnacional como exila- do11, apesar de identificá-lo como búlgaro,
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Antes de aprender alemão, já adolescente, Canetti falava ladino, búlgaro, inglês e francês. Escrever pois, em alemão foi, de fato, uma escol- ha, uma escolha afetiva motivada pela memória da língua secreta, símbolo do amor dos pais, os quais só falavam alemão nos momentos de intimidade e felicidade (CANETTI, 2010a).
o fazemos mais por comodidade e por ser o país de seu nascimento, do que por sua nacionalidade final, a de suíço, também, anoto, seria difícil inscrevê-lo como austro- búlgaro-britânico-helvécio, o que seria mais adequado). Identifico neste texto a mesma relevância para o campo das letras que o trabalho de Catani (1990-1991) tem para a educação, ambos são textos fun- dacionais, porém o impacto dos estudos de Aron (1994) não pode ser percebido através de citações em outros textos.
Há, ainda, no campo dos Estudos Literários, uma tese de doutoramento que faz uso extensivo de dois livros de Canetti, em língua alemã, Die Gerettete Zunge (A Língua Absolvida) e Die Fackel im Ohr (Uma Luz em Meu Ouvido), de Luis Sérgio Krausz (2006), que busca nos dois primeiros volumes da autobiografia canet- tiana, ecos do modo de vida dos judeus alemães no final do século XIX e início do século XX. Canetti é o principal informante do modus operandi da vida vienense da tese de Krausz (2006), no entanto, como a tese se dedica a outro autor, Joseph Roth, as inserções dos livros canettianos citados aparecem como elementos para se melhor compreendê-lo.
No campo da Psicologia aparecem a tese de doutoramento de Waisberg (2008) e a dissertação de mestrado de Salvador (2011). A primeira, por se tratar de um texto estudo sobre Robert Musil, faz uso das autobiografias de Canetti, em espe- cial de O Jogo dos Olhos, como fonte de informação sobre Robert Musil, contem- porâneo e amigo não muito próximo de Canetti. A dissertação de Salvador (2011) trabalha o texto Auto-de-fé de Canetti como metáfora da decadência germânica do período que antecedeu o avanço do nazismo. Ambos os textos aproximam o universo da literatura das Humanidades, percebendo o texto literário mais como campo que recurso de citação.
Os textos identificados sob a categoria Apropriação de Conteúdo expõe o caráter interdisciplinar das abordagens empíricas
dos textos de Elias Canetti, cujos escritos vem funcionando a mais de duas décadas como informante do zeitgeist da cultura europeias do período entreguerras, do fin- de-siècle e das formas de educação - e for- mação – dos sujeitos letrados dos círculos da elite intelectual das primeiras décadas do século XX em grandes centros econômicos e políticos da Europa, de leste a oeste, do centro a periferia, as quais circulou ora como migrante ora fugindo das consequências do conflito em o Reich e os Aliados.
De certa forma, também nos diz do quão pouco explorado ainda é o estudo de Canetti no Brasil, o que ainda pode ser aprofundado e diversificado, no sen- tido de dar ao autor de Massa e Poder a relevância que já possui em outros locus de produção acadêmica.
Considerações Finais
Os trabalhos de Elias Canetii encontra- ram muitas e múltiplas formas de manifes- tação no universo acadêmico brasileiro, entender suas formas de apropriação pode nos ajudar a melhor compreender os processos de circulação e desenvol- vimento dos diversos receituários teóri- cos, representacionais e literários que
nos chegam das mais diversas matrizes conceituais e nacionais, deixando rastros nas áreas das humanidades.
No caso de Canetti é perceber como seus textos ultrapassam a abordagem óbvia que teriam no campo dos Estudos Literários e encontram caminhos e senti- dos em outros campos de conhecimento, o que nos diz alguma coisa sobre o caráter não fechado de seus textos e de sua liber- dade, mas também da capacidade criativa de nossos pesquisadores, que abordam de forma não ortodoxa a obra canettiana.
Ainda, um levantamento dessa natureza contribui, como exemplo para que pesqui- sas que tenham nosso autor como objeto de estudo e teórico de fundamentação possam encontrar um ponto de partida, no qual se possa identificar heurística das abordagens de Canetti no país e que o mesmo esforço comece a ser desenvolvido em outros países. Também, assim espero, este trabalho, possa servir de exemplo para que outros processos de apropriação de outros autores venham a ser feitos, contri- buindo assim para a melhor compreensão da leitura, recepção, apropriação e – por que não? – influência que determinados escritores, ensaístas e teóricos exerçem sobre campos de conhecimento, universi- dades e professores brasileiros.
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