Artículo de Reflexión sobre COVID-19 

 

Enfrentar com solidariedade

a COVID-19

 

Wladimir Porreca 1

 

1 Doutor em Psicologia (FFCLRP/USP). Universidade de Brasília (UnB). Brasília-DF. Brasil, ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4157-5893. E mail: wp@unb.br

 

 Archivos de Medicina (Manizales) Volumen 21 N° 1, Enero-Junio 2021, ISSN versión impresa 1657-320X, ISSN versión en línea 2339-3874, Porreca W.

 

Recibido para publicación: 05-10-2020 - Versión corregida: 05-11-2020 - Aprobado para publicación: 10-11-2020

 

Porreca W. Enfrentar com solidariedade a COVID-19. Arch Med (Manizales). 2021; 21(1):285-299. https://doi.org/10.30554/archmed.21.1.4000.2021

Resumo

A pandemia do COVID-19 como um fato social total impôs à humanidade rápidas e profundas mudanças em sua forma de viver e se relacionar, principalmente nos países mais vulneráveis à doença. Uma realidade complexa e desafiante que pode favorecer singulares possibilidades de humanidades e sociabilidades, entre elas a da solidariedade, que se entrelaça e dá uma forma na tessitura social. Objetivo: esse ensaio busca refletir que a solidariedade, entendida como dádiva, ou seja, um sistema de trocas interpessoais, apto em dar, receber e retribuir, pode ser uma companhia eficaz no enfrentamento da realidade pandêmica Método: A partir do paradigma relacional fundamentado na orientação da teoria multidimensional da ação, foram revisitadas a saúde pública e questões éticas, para refletir a intervenção da solidariedade. Considerações: percebe-se que a solidariedade como dádiva pode ser um possível caminho para o desenvolvimento das potencialidades humanas e sociais; a) um paradigma ético que reoriente os direitos individuais para os direitos coletivos e o bem comum, porque ultrapassa as relações mercantis e c) promove/reascende o status social humano de cooperação e colaboração coletivos, fecundo e promissor para a sustentabilidade social e atributos éticos humanitários e coletivos.

Palavras-chave: COVID-19; solidariedade; aptidão; relações interpessoais.

Confront with solidarity COVID-19

Summary

The COVID-19 pandemic as a total social fact, imposed on humanity rapid and profound changes in the way they live and relate, especially in the countries most vulnerable to the disease. A complex and challenging reality that can favor singular human and social possibilities, including that of solidarity, is intertwined and gives shape to the fabric pf society. Objective: this essay seeks to reflect that solidarity, understood as a gift, that is, a system of interpersonal exchanges, capable to give, receive and reciprocate, which can be an effective company in coping with the pandemic reality Method: based on the relational paradigm founded on the orientation of the multidimensional theory of action, public health and ethical issues were revisited, to reflect the solidarity intervention. Considerations: a) making it clear that solidarity understood as a gift can become a possible path for the development of human and social potential; b) an ethical paradigm that redirects the collective rights of the individual towards the common good, because it goes beyond market relations and c) promotes or rekindles social human status of collective cooperation and collaboration, fruitful and promising for social sustainability and ethical humanitarian and collective attributes.

Keywords: COVID-19; solidarity; aptitude; interpersonal relations.

Enfrentar con solidaridad a la COVID-19

Resumen

La pandemia de COVID-19 como un hecho social total impuso a la humanidad cambios rápidos y profundos en su forma de vivir y relacionarse, especialmente en los países más vulnerables a la enfermedad. Una realidad compleja y desafiante que puede favorecer posibilidades singulares de las humanidades y la sociabilidad, incluida la solidaria, que se entrelaza y da forma al tejido social. Objetivo: este ensayo busca reflejar que la solidaridad, entendida como un don, es decir, un sistema de intercambios interpersonales, capaz de dar, recibir y devolver, puede ser un camino efectivo para enfrentar la realidad pandémica. Método: basado en el paradigma relacional, fundamentado en la orientación de la teoría multidimensional de la acción, se han revisado las cuestiones éticas y de salud pública, para reflejar la intervención solidaria. Consideraciones: se percibe que la solidaridad entendida como regalo puede ser a) un camino posible para el desarrollo del potencial humano y social; b) un paradigma ético que reorienta los derechos individuales hacia los derechos colectivos y el bien común, porque va más allá de las relaciones de mercado y c) promueve / resurge el estatus social humano de cooperación y colaboración colectiva, fructífera y prometedora para la sostenibilidad social y los atributos éticos humanitarios y colectivos.

Palabras clave: COVID-19; solidaridad; aptitud; relaciones interpersonales.

Introducão

Comumente a humanidade é influenciada por conflitos, crises, guerras, doenças e revoluções que condicionam a existência humana de várias maneiras: fortalecem e enfraquecem populações, promovem êxodos migratórios, propiciam miscigenação, ou seja, influenciam vertiginosamente o destino da humanidade, quando não levam à morte parte da população. Em síntese, grande parte dos abalos sofridos pela humanidade deixam um legado irredutível de diversas mudanças e aprendizagens, em diferentes áreas e realidades, e influenciam padrões de comportamentos, relações, hábitos, valores e sentimentos.

Mudanças velozes provocam vários questionamentos e exigem rever e reposicionar as estruturas e dinâmicas humanas existentes, diante de dados objetivos que essas novas realidades provocam. Assim, as guerras, as epidemias graves e as descobertas científicas constituem pontos de mutação e aceleram a superação dialética de antíteses e limites.

Em pleno século XXI, a humanidade é assolada por uma crise sanitária devastadora, a pandemia da COVID-19. Um vírus (SARS-CoV-2) de 125 nanômetros de diâmetro, invisível, que deixa todas as pessoas suscetíveis à contaminação, sem diferenciação de grupos étnicos ou camadas sociais. Coroado por natureza, destrona a pessoa humana de seu trono de onipotência e individualismo, a sentencia ao isolamento social, e, ainda, condena muitos à morte.

A tragédia humanitária instalou-se com milhares de óbitos e milhões de pessoas em pânico, com medo de serem contaminadas. Os fortes impactos das políticas de isolamento social e o pavor do possível colapso da saúde pública também foram significativos em vários aspectos da saúde mental e econômica.

A crise sanitária da COVID-19 despertou a humanidade com uma música desafiadora de impotência e solidão; as questões humanas existenciais foram atingidas em cheio. As pessoas foram privadas do toque, do abraço, do contato, da presença do outro. Emoções de medo e insegurança paralisaram o movimento da humanidade [1].

Talvez a humanidade esteja enfrentando, de forma vertiginosa, diversas e profundas mudanças com a COVID-19, pois deparou-se com muitas vulnerabilidades. Isso atrai questionamentos de paradigmas e um renovar metafísico, e favorece o brotar de um viés solidário multifacetado.

A solidariedade como ação muldimensional humana constituiu uma necessidade coletiva urgente entre as pessoas, em especial neste tempo pandêmico no qual se enfrenta a alta transmissibilidade do novo coronavírus e convive-se com grande proporção de óbitos e infectados oligossintomáticos ou assintomáticos. O temor cresce pela ausência total de vacina e de terapia medicamentosa comprovada, pela insuficiente cobertura de testes, pela duração prolongada dos quadros clínicos. Essas realidades justificam as decisões e ações solidárias coletivas de enfretamento em todo mundo, voltadas para a prevenção da disseminação do vírus, em especial entre a população com maior risco de contaminação e entre aquelas pessoas que foram mais atingidas pela crise econômica e social. Além desses percalços, há que se ressaltar que o isolamento social por si só, acelerou o aumento da pobreza e gerou carências básicas nas populações mais vulneráveis [2].

O enfrentamento solidário da pandemia da COVID-19 se dá como um processo pelo qual as pessoas empenham-se em entender e aprender a lidar com as exigências urgentes para manterem a própria vida e do outro, levando-se em conta as ameaças avassaladoras do SARS-CoV-2. O processo solidário de enfrentamento dessa realidade requer sérias e concretas avaliações da situação pandêmica. Para que ele possa acontecer, é importante distinguir duas necessidades. A primeira é relacionada a situações mais graves e urgentes, que são prejudiciais, ameaçadoras e fatais. A segunda diz respeito àquelas atividades de prevenção sanitária e mudança de estilo de vida, com impulso de afeição e responsabilidade nos relacionamentos com os outros. O resultado dessas avaliações permitirá definir os recursos e restrições pessoais e coletivas das ações para o enfrentamento da COVID-19 [3].

O presente ensaio teórico de natureza reflexiva e interpretativa procura, então, visualizar o constructo da solidariedade, sustentado pela teoria multidimensional da ação de Mauss [4], isto é, um paradigma relacional que vai além do individual, em que a ação solidária desenvolve a obrigação “livre” de retribuição, sem equivalência, pela espontaneidade e criatividade; um sistema de trocas interpessoais interessado pelo bem comum, que motiva a fazer o bem, criar vínculo, estabelecer uma rede de relações, criar a aliança, um pacto de confiança, com o outro.

Assim, urge valorizar a solidariedade como uma dádiva, que tem por base a tríplice ação de dar, receber e retribuir, uma das potencialidades e qualidades humanas, bem como refletir a sua importância em ações humanas como um recurso no enfrentamento da realidade pandêmica da COVID-19.

As reflexões críticas para se compreender as realidades aqui apresentadas sobre a solidariedade basearam-se nos matizes históricos de solidariedade em cenários éticos, com interface entre problema de saúde pública e aspectos sociopsicológicos parecidos ou diferentes dos conhecidos, em referências e dados construídos e reconstruídos, diante da complexa e instável realidade da crise pandêmica que constantemente se modifica [5].

Matizes de solidariedade

A palavra solidariedade tem afinidade semântica com os termos humanidade, cooperação, fraternidade, humanismo, entre outros. Um conjunto de significados que pode nos ajudar a refletir os conteúdos possíveis das redes de solidariedades emergenciais que se colocam nesse momento pandêmico como resposta urgente à luta pela sobrevivência, resistência à barbárie social e um eixo fundamental da transformação social [6].

A solidariedade alçou voos diversos no decorrer dos séculos, em diferentes áreas e abordagens. Não é mais equiparada à fraternidade, como na concepção pré-moderna da palavra, relacionada ao significado de responsabilidade altruísta, igualdade, irmandade, fruto do termo político fraternité, adotado na Revolução Francesa (1789). Nem mesmo se detém apenas aos conceitos da Revolução dos Trabalhadores, de 1848, quando se passou a adotar a noção de solidarité com o significado solidus – o próximo e o seguro –, ou in solidum – o dever para com o todo, a obrigação solidária – que pertenceu ao âmbito estritamente jurídico [7]. A solidariedade, no campo na sociologia, passa, então, a ser entendida como fato social.

Tal concepção só foi possível de ser entendida graças ao estudo de Émile Durkheim, em sua tese de doutorado (1893), quando analisou a sociedade a partir do processo de urbanização e industrialização. Ele observou que o indivíduo tem uma consciência coletiva de valores daquele grupo em que estaria inserido, a qual é transmitida por sua vida social, e a soma da consciência individual com a coletiva formaria o ser social, o qual teria uma vida social entre os membros do grupo. Assim, para Durkheim, a solidariedade social seria formada pelos laços que ligam os indivíduos, membros de uma sociedade, e pela consciência coletiva, formando uma coesão social entre os indivíduos, do tipo mecânica e/ou orgânica [8].

A partir do conceito de solidariedade de Durkheim, Marcel Mauss, sociólogo e antropólogo francês, sobrinho e seguidor de Durkheim, estudando as sociedades primitivas, descreveu, em seus estudos (1925), que os fatos sociais trazem apreensões subjetivas, e considerou a importância da dádiva/dom, da obrigação e da liberdade, para aquelas sociedades estudadas. Durkheim evidencia assim que o valor das coisas não é superior ao da relação, e que o simbolismo é fundamental para a vida social, uma maneira diferente de entender a economia e a moral. Assim, nas conclusões de seu ensaio, revela ser possível estender estas observações para a sociedade moderna [4].

Em 1981, Alain Caillé, com um grupo de intelectuais franceses, funda o M.A.U.S.S. (Movimento Antiutilitarista em Ciências Sociais) e, a partir dos estudos de Mauss, sistematiza a dádiva/dom como um paradigma relacional e primordial. O movimento propôs analisar os vínculos sociais por meio das inter-relações entre as pessoas, concebendo com que elas atuem como atores sociais. Assim, pelos laços que ligam os indivíduos, membros de uma sociedade, uns aos outros e pela consciência coletiva, forma uma coesão social entre os indivíduos [9].

Godbout [10] descreve que no dom não existe a quitação da dívida, característica primordial das relações com o mercado e. propõe modelos de manifestações de dádiva diferentes do dom do mercado. Incita, assim, a refletir que o dom/a dádiva supõe o implícito e o não dito manifesto, e que este atua com regras não formuladas, sendo confundido com a equivalência ou a troca. O dom é sempre gratuito, sem interesse individual, difícil para se entender gratuidade e desinteresse individual, por isso pensá-lo como uma relação de pessoa a pessoa e como um símbolo das afinidades eletivas e associadas [11].

Existe um elo entre a questão da significação da dádiva e a estrutura, dinâmica e diretriz da ação associativa, seja ela uma associação, organização, grupo, comunitário e outras formas de coesão e união, pela qual a pessoa e o seu tempo são disponibilizados [9].

Por meio da dádiva/dom, conexões são estabelecidas entre as pessoas, o que as impele a uma ação social, em diversos níveis e nos diferentes lugares, não se reduzindo à impessoalidade, funcionalidade e redistributividade, como no welfare state.

As relações se constroem sob novas formas de ações humanas, que ultrapassam cálculos e interesses, material ou imaterial, obrigação e espontaneidade, amizade e compromisso, em suma, é uma dádiva/um dom, as relações que constituem alianças e formam vínculos, que constroem um universal em dar, receber e retribuir [11].

A solidariedade também pode ser entendida como um complemento à justiça, em que cada pessoa se torna responsável pelo outro (uma forma de intersubjetividade compartilhada) [12], praticam a cooperação com o objetivo de preservarem a liberdade, a integridade física e o respeito pela vida.

Assim, entende-se solidariedade como ação ou intervenção de pessoas associadas, em redes ou não, cooperando umas com as outras, por se enxergarem e se reconhecerem como pertencentes a uma mesma humanidade, membros de uma mesma sociedade vinculados por uma intersubjetividade, ou mesmo por fraternidade [13], caminhando com ideias semelhantes para um mesmo fim, orientadas pelo princípio da dádiva/dom.

Ações solidárias e saúde pública

Ações solidárias não revelam nenhuma novidade na história da humanidade, mas têm suas representações nas questões éticas, morais e jurídicas, desde os tempos dos filósofos gregos, em especial em Aristóteles [14]. No entanto, foi no século 19 que a chamada solidariedade, ou as chamadas ações solidárias, assume uma categorização e normatização sociais, principalmente como resposta às realidades decorrentes da sociedade industrial.

A COVID-19 impôs à humanidade revisitar o atributo humano da dádiva relacional, não como uma ideia abstrata, nem uma troca mercantil de contrapartida e equivalência [4], mas concreta, real, possível, pelas várias iniciativas de solidariedade que foram sendo reavivadas e construídas, o que nos leva a presenciar uma primavera da solidariedade.

Uma bela flor de humanidade pode estar nascendo nesse ardiloso e pedregoso terreno da COVID-19, onde persiste a existência das banalidades políticas, econômicas e sociais que veem no sofrimento alheio diversas oportunidades principalmente de exploração, de obtenção de lucro e voto. Porém, acima de mazelas pontuais, sinais incríveis de escandalosos movimentos de solidariedade e compaixão nas relações humanas são observados nas empresas, escolas, comunidades, bairros e outros.

A mídia tem divulgado grupos solidários, desde aqueles com mais condições e recursos até os mais pobres, que se organizam em redes para auxiliar os contingentes de desfavorecidos. Cada uma das ações em prol de necessidades nesse tempo pandêmico criou um laço de energia espiritual entre os grupos ao redor da prática solidária.

Uma rede de banqueiros, empresários, investidores fazendo doações consideráveis, instituições religiosas e sociais auxiliando nas necessidades básicas nos projetos alimentícios e de remédios é, sem dúvida, uma grande demonstração de solidariedade. Até mesmo pessoas com recursos reduzidos compartilham esforços e bens em torno de uma única causa, auxiliar as pessoas no enfrentamento da COVID-19.

Em muitos lugares no mundo, a população reconheceu a dedicação e o empenho dos profissionais de saúde, que estão em contato de forma mais direta com o vírus e não deixaram de cumprir suas atividades. Basta verificar os inúmeros agradecimentos nos diferentes hospitais, nas unidades de saúde, entre os pacientes recuperados da COVID-19 e seus familiares. Até o maior líder do catolicismo no mundo comparou os profissionais de saúde à “anjos da saúde” [15].

Não somente os indivíduos por si só que se colocam na prática da solidariedade, mas sim as coletividades, que mantiveram os cuidados e auxílios, mediante os grupos e redes comunitários; o que Mauss [4] descreveu como misturas entre almas e coisas, entre riquezas materiais e espirituais.

Muitos de nós ficamos mais compassivos e sensíveis com as dores e os sofrimentos vividos por famílias que perderam seus entes queridos, e também em tantas outras realidades que requeiram proximidade no cuidado do outro. Os atributos humanos de solidariedade e compaixão ultrapassaram os limites inflexíveis da religião, raça, cultura, camada social, uma verdadeira coesão social orientada pelos princípios de colaboração e ajuda mútua [16].

A pandemia da COVID-19 insere um elemento novo e inesperado na regulação das interações sociais: os perigos da contaminação e contágio são inerentes às relações interpessoais. Reascende-se, assim, uma preciosa dimensão humana, outrora esquecida pela sociedade individualista: o humano é um ser também de relação consigo mesmo, com o potencial de ser livre e responsável, destinado a um fim.

O humano relacional sempre foi um ser que sobreviveu e manteve sua espécie pelo sistema de cooperação e companhia. A pessoa humana é o único animal que pode combinar as duas habilidades, cooperar com flexibilidade e ainda fazê-lo em grandes grupos [17]. Contudo a COVID-19 evidenciou um dilema relacional e existencial: eu preciso de um outro, mas, pelo outro, posso ser contaminado; no entanto, é pelo outro que eu posso ser curado.

Considerando-se as devidas proporções de prevenção e isolamento social, a solidariedade constitui-se, nesse tempo de pandemia, a forma necessária das relações humanas, a forma do conjunto das relações sociais em prol da saúde. Seria, ainda, o fio condutor eficaz para direcionar e orientar as ações coletivas que agregam as potencialidades humanas para um bem comum, identificando as pessoas na busca de um mesmo fim, a manutenção da saúde e a preservação da vida humana.

A pandemia não revelou somente as desigualdades e vulnerabilidades sociais, mesmo que estas, ainda, sejam gritantes. Mas trouxe à tona a privação dos direitos e recursos essenciais à vida, em especial na saúde pública, que revelou um sistema de saúde precário, sobrecarregado e obsoleto, diante do qual os governos se viram surpreendidos.

No Brasil, os vários pronunciamentos oficiais do Ministério da Saúde brasileiro, vieram eivados de contradições com a Presidência da República, com as autoridades da saúde e com OMS. Nessas falas, notou-se a preocupação em reduzir a velocidade de propagação da COVID-19 na população brasileira; em atender a demanda com a expansão de leitos disponíveis, bem como superar a insuficiência de aparelhos e insumos médicos, no cuidado dos pacientes mais graves [18]. Ficou evidente, pelo teor dos pronunciamentos, que a saúde pública está doente e com dificuldades em socorrer aqueles que, contaminados, necessitam de cuidados especiais.

Com a COVID-19, o Brasil só não entrou num colapso por causa do tão criticado Sistema Único de Saúde – SUS, formado por um conjunto de todas as ações de serviços de saúde prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo Poder Público [19]. O SUS conseguiu, diante da COVID-19, garantir atendimento gratuito à população mais carente, principalmente por dispor de 2,62 leitos de hospital em UTI (unidade de tratamento intensivo) para cada 10 mil habitantes [20]. Mesmo com limitações, o SUS foi reconhecido e valorizado pelas mais diferentes camadas sociais; um sistema que salvaguardou a nação de uma catástrofe maior e garantiu possiblidades concretas, às pessoas contaminadas, em especial às mais empobrecidas, de serem atendas e cuidadas.

A realidade pandêmica mundial e a precariedade da saúde pública sensibilizaram grandes empresas, as quais se disponibilizara a realizar doação de dinheiro, produtos e trabalho para ajudar a combater a pandemia. Algumas grandes empresas fizeram generosas doações a hospitais e centros de saúde, bem como grandes investimentos em pesquisas, atendendo ao compromisso social com um todo, que é a sociedade. Foram contabilizadas, pelo Monitor das Doações COVID 19, no site da Associação Brasileira de Captadores de Recursos [21], mais de 540 campanhas solidárias realizadas em todo Brasil.

Tais ações emblemaram a solidariedade como necessária e possível diante da realidade catastrófica da saúde pública na maioria dos países, tendo em vista que a ação solidária exige compreender-se parte de um sistema, de um todo; cooperar sem a noção do todo do qual se participa é apenas trabalhar junto, colaborar.

A prática de ações sociais realizadas, em tempo de COVID-19, por grupos financeira e emocionalmente favorecidos, que poderiam escolher ou não praticar ações solidárias, desvelou as mazelas e as diferenças entre as camadas sociais nos países, e isso tornou evidente vários problemas de privilégios e exploração que os sistemas econômicos presentes nas sociedades, em especial o capitalismo liberal, favorecem e mantêm [22].

A solidariedade não está restrita ao aspecto financeiro e a grandes doações, mas são ações que têm o intuito de acompanhar, escutar, informar e educar outros no enfrentamento do SARS-CoV-2. As ações solidárias aconteceram e acontecem tanto na esfera individual como nas instituições, uma comoção de parcerias para enfrentar uma das maiores crises sanitárias públicas do mundo.

A pessoa humana, por ser relacional, fica mais sensível e se identifica com a mesma condição do outro, principalmente diante da dor e da ameaça à existência do outro. Nesse momento de dor, são estabelecidos laços, vínculos que ultrapassam os limites das realidades ameaçadoras e buscam coletivamente soluções e recursos para se conquistar seus objetivos.

Os empresários, industriários, governos e colaboradores brasileiros precisaram dialogar sobre as diversas possibilidades para não aumentarem o caos econômico e social que a pandemia estava construindo, afinal, seria suicídio econômico e social desamparar os menos favorecidos e aumentar o desemprego e a pobreza no país.

Atitudes solidárias abriram oportunidades promissoras para se fortalecer o tão necessário empenho no diálogo e na sustentabilidade social e ambiental, isto é, no conjunto de ações que visam a melhorar a qualidade de vida da população e a ecologia. Foram iniciativas que tornaram mais potente a ética social e ambiental, ampliaram a união entre as pessoas, mudaram a maneira de se agir em relação à natureza e criaram maior resistência aos abusos.

Como a ética e a sustentabilidade social caminham juntas, ao se reexaminar os valores e princípios em razão no tempo da pandemia, urgiu redefinição do quadro ético e reavivamento de ações estratégicas na política, economia, saúde para se enfrentar a COVID-19. A ética social e ambiental assumiram, mais do que nunca, as soluções e injunções lideradas pela comunidade para enfrentar a crise sanitária atual, as quais devem ser seguidas pelas agências da ONU, governos, agências doadoras, acadêmicos e pesquisadores e atores da sociedade civil.

Este é o momento de se decretar novas realidades e arquiteturas de políticas de prevenção e cura para a sociedade em geral, que favoreçam o enfrentamento à COVID-19. Essa nova realidade tende a garantir o acesso desimpedido a programas de prevenção e à vacina, à redução de danos, a esquemas de proteção social disponíveis para as pessoas do grupo de risco, principalmente para aquelas que enfrentam insegurança alimentar e de moradia. Uma restruturação política deverá fomentar ações de proteção e motivação da autonomia da comunidade e da sociedade civil, por considerar que a saúde global nunca foi neutra, mas sempre incorporada e construída por meio de contextos políticos, sociais e culturais [23].

Questões éticas e a solidariedade

Com a COVID-19, emergiram inúmeros questionamentos éticos e existenciais a respeito da dignidade de espaços e tempos humanos. Num espaço global incomum para os seres humanos, caracterizado pelo artificialismo humano, palco das aparências, instância que abriga o cabedal de conhecimentos, instituições, significados, virtudes, linguagens, histórias e costume de uma comunidade [24], a pessoa humana pode despertar para o fato de que ela não se reduz à uma “máquina de produção” – mesmo com as investidas crises de absentismos –, objeto do lucro, ela é um ser que é humano, digno de ser respeitado em sua integralidade [4].

O ser humano como protagonista no processo humanizante tem elementos comuns de viver e realizar suas potencialidades, que se desdobram em habilidades pessoais e coletivas, um ser que tem em comum o humano. Por isso, lhe é atribuído um conjunto de obrigações coletivas com o ser humano seu semelhante, seja quem for, muito além das relações interpessoais que envolvem família, amigos, vizinho e mesmo sua própria vontade individual.

Na crise sanitária causada pela COVID-19, uma outra questão ética surgiu quando as pessoas se depararam com a realidade de que não poderiam fazer nenhuma previsão, de que a máscara ilusória da onisciência e do controle não lhes caberia mais no rosto, devendo agora ceder lugar a uma máscara de proteção.

As pessoas teriam que enfrentar a realidade conforme a pandemia possibilitasse suas ações e precisariam contar com a solidariedade e compreensão dos outros, bem como ajudarem-se reciprocamente, seja para desenvolver uma vacina e/ou lidar com as consequências econômicas, porque, de fato, os projetos e planos pessoais e sociais pré-estabelecidos perderam sustentação e ficaram à mercê do enfrentamento de um vírus que se disseminou vertiginosamente [25].

Ainda que perdure a rivalidade na sociedade, a solidariedade continua a constituir uma expressão relevante na ação social. Contar com a compreensão e cooperação do outro, esperar o outro, colaborar com o outro tornou-se uma tarefa quase cotidiana. Tudo se justificava pela atuação do vírus e, de fato é verdade, não se pode prever quase nada, nem compromissos, nem agenda, nem esquemas. Conforme a disseminação e a mortalidade acontecem, conforme a curva epidêmica se movimenta, acontece o isolamento social, e, consequentemente, a reorganização social e solidária. Exatamente aquilo que Mauss denominou de os três momentos fundamentais da dádiva como uma relação, um ciclo, uma dança que remete à representação: dar, receber, retribuir [25].

Como questão ética, o isolamento social é baseado não somente no altruísmo e interesse pessoal, mas entendido como a disposição de se fazer coisas que trazem um bem para os outros e, muitas vezes, com renúncia e sacrifício; uma mudança de paradigma que reorienta os direitos individuais para os direitos coletivos e o bem comum. Daí entender que a solidariedade, diante do isolamento, não é questão religiosa de caridade e nem ingenuidade, mas trata-se de uma ética social em doar para que o outro também doe, ou seja, de inspirar um movimento que permita ampliar e fazer circularem incessantemente ações solidárias [22].

O dever ético da solidariedade para o bem das pessoas em tempo de pandemia dirige-se, principalmente, para aquelas pessoas do grupo de risco; está relacionado ao direito à segurança e saúde pessoais. É uma responsabilidade social que se constitui em uma questão ética, não percebida somente como um comportamento opcional baseado em altruísmo e bondade [26].

À luz da ética da solidariedade, a exigência de se praticar o distanciamento social para o bem de grupos vulneráveis (idosos, enfermos e assim por diante) representa a responsabilidade social para com nossas comunidades compartilhadas [27] e para alguns grupos sociais, como pessoas com deficiência, os sem-teto, os migrantes sem documentos e tantos outros que requerem atenção especial.

A humanidade foi obrigada, repentinamente, a parar e a conviver consigo mesma; ficar de frente para o impossível, desacelerar, repensar os rumos, e até obrigada a parar a corrida desenfreada a que foi lançada; o tempo de confinamento ainda é um “convite” à redução, ou tentativa de redução, do ritmo em que a vida acontece. Convite porque não são todas as pessoas que podem ter o “privilégio” de fazer a quarentena. As comunidades mais empobrecidas, com espaços físicos reduzidos, com condições, muitas vezes, precárias para manterem as suas necessidades mais básicas, sem apoio dos governos, se viram impelidas a continuarem com o seu ritmo de trabalho [28].

Entre as consequências da obrigatória parada diante da disseminação do SARS-CoV-2 está a enorme recessão planetária, que se avoluma e exigirá das nossas sociedades, governos e de cada um/a de nós, em seus respetivos papéis, rediscutir, reelaborar, reconstruir, profundamente, posicionamentos políticos, econômicos, sociais, espirituais, já tidos como óbvios, mas que nos anos passados foram insuficientes, periculosos e frágeis para as realidades enfrentadas. E ao mesmo tempo, somos convidados a abrir novas e antigas formas de ações solidárias [29].

No tempo pandêmico da COVID-19 com períodos de doenças e isolamento social, os esforços práticos e científicos ainda estão mais focados nos aspectos biológicos da doença, deixando para segundo plano o componente da saúde mental. A presença de sofrimento psíquico gerado pela vulnerabilidade e estresses com a doença, exerce fortes efeitos de risco no cotidiano e na qualidade de saúde e de vida das pessoas, e ainda, pode aumentar ou agravar de quadros psicopatológicos preexistentes, bem como, desencadear crises de depressão e ansiedade [30].

No contexto de agravamento de transtornos mentais, os conselhos de psicologias (Resolução Conselho Federal de Psicologia n.º ٠٤/٢٠٢٠) iniciaram, emergencialmente, apelos e orientações éticas e solidárias para que os psicólogos pudessem atender on-line e gratuitamente as pessoas que necessitassem. As respostas positivas foram inúmeras, segundo relatos de diversos Conselhos Regionais de Psicologia no Brasil, em suas páginas institucionais.

Variadas Lives disponibilizadas gratuitamente de todos os tipos e “gostos” em torno da saúde física, mental, relacional e espiritual foram realizadas para orientar em como prevenir e manter o físico, o comportamento, as relações e o emocional saudáveis durante o isolamento social. Foram ações solidárias que, isoladas ou não, consolidavam-se na totalidade, tornando-se cada vez mais coesas e sólidas.

Interessante notar que, nem sempre a solidariedade basta para que as pessoas se sintam seguras; com a disseminação da COVID-19, as migrações inversas também estão acontecendo. Milhares de pessoas que vivem no exterior, apesar de laços profissionais e sociais estáveis, podem usufruir da solidariedade de tantas pessoas nos locais onde estão, foram motivadas a repensarem no retorno às suas famílias de origem devido à incerteza, ao medo, à insegurança, à imprevisibilidade [31].

A questão ética da comunicação “verdadeira” e clara em tempo de fragilidades é muito séria, principalmente diante de uma pandemia como a COVID-19. As reações que as pessoas tiveram e estão tendo quanto à gravidade da doença dependem e muito da forma como o conteúdo é transmitido e de como o próprio conteúdo técnico em si é abordado.

A falta de informações técnicas, o excesso de fake news, a disseminação de informações imprecisas e inconclusivas, bem como os limites de acessos aos meios de comunicação e outras lacunas na comunicação e, ainda, as diversas e contextuais reações diante da realidade pandêmica, conduziram as pessoas, em especial as brasileiras, a um enfrentamento complexo e cético quanto ao aderir ao isolamento social e às práticas de prevenção.

No Brasil, o primeiro anúncio de que aqui havia chegado uma doença que estava no outro lado do Planeta foi impactante. Foi uma notícia surpresa de uma ameaça vital, uma notícia esperada e inesperada, conhecida, mas parcialmente, obnubilada e pouco técnica sobre essa doença que se aproximava. E, ainda mais, essa doença sem cura, sem remédio e com poucos recursos para ser controlada e cuidada gerou fortes reações e ativou inúmeros mecanismos de defesa, entre eles os da negação e redução da gravidade da COVID-19.

O Brasil poderia sofrer menos o impacto da COVID-19 do que outros países, pois lhe foi possível acompanhar outros contextos que estavam em meio ao contágio da doença. Porém, o Brasil pouco se preparou. Com a disseminação rápida do coronavírus, ainda houve uma grande porcentagem de pessoas que desconsideraram a gravidade da doença, e muitas outras que não seguiram as orientações sanitárias de prevenção e promoveram ações que contrariavam o isolamento social, incentivadas, em parte, pelas posturas medíocres e insanas de governantes que visavam somente às questões econômicas e políticas.

Posteriormente, houve uma coesão maior da população em geral, quando os números começaram a se tornar nomes e rostos conhecidos. As informações técnicas começaram a ser mais claras, e as medidas de isolamentos sociais, mais exigentes. Isso revela que as ações humanas, para serem solidárias, precisam ser reconhecidas e identificadas na mesma busca e ideal, no caso da pandemia, a sobrevivência da espécie.

Com o avanço do vírus e necessidade de urgência nas pesquisas sobre o desenvolvimento da vacina contra a COVID-19, exigências éticas e solidárias não podem ser minimizadas, tanto para voluntários como para os pesquisadores e autoridades governamentais. A isso alguns pesquisadores estadunidenses chamam de proposta human challenge study (estudo do desafio humano, em tradução livre) [32]. Princípios éticos tornaram-se essenciais para minimizar os riscos e garantir, em amplo sentido, a liberdade dos voluntários e pesquisadores; o acesso a informações precisas, objetivas e claras para decidirem fazer ou não parte do estudo. Os princípios éticos sociais e ambientais precisam ser preservados, acima de interesses políticos e econômicos, nessa realidade nova, complexa, urgente e desafiante da pandemia.

Que tipo de mundo surgirá após a COVID-19 ainda está em aberto para contestação. Para sustentar a esperança por um mundo mais igualitário e justo, é preciso trabalhar com o propósito comum de concretizar uma nova realidade baseada na solidariedade e cooperação, proteção da saúde e resgate dos direitos e dignidade das pessoas [22].

No curso pandêmico da COVID-19, que caminha lentamente para seu possível desfecho, longe do desejável, foi possível ressignificar e recriar muitas circunstâncias. A capacidade de solidariedade possibilitou que, em muitos lugares despreparados e surpresos pela avassaladora pandemia, a saúde pública não entrasse de forma colossal em colapso, e as questões éticas emergidas pudessem, pelo menos em muitas partes do planeta, ser sustentadas pelas redes de colaboração que promovam coesão e altruísmo, sustentando a solidariedade entre as pessoas.

Considerações

A realidade pandêmica da COVID-19 obriga as pessoas a entenderem, refletirem e tomarem decisão sobre a novidade e rapidez da disseminação do SARS-CoV-2, acima de tudo para manterem a vida e a integridade humanas, bem como serem forçadas a um olhar mais realista sobre a saúde pública, que poderia colapsar e não conseguir atender a demanda de doentes.

Para enfrentar a COVID-19, todos fomos obrigados a nos reinventarmos e nos solidarizarmos urgentemente, para sobreviver – ressignificar para não enlouquecer. De fato, as mudanças que vinham sendo paulatinamente implantadas na humanidade e incorporadas a ela sofreram rápida aceleração e, vertiginosamente, impuseram-se; aquilo que era tendência para décadas instalou-se como realidade concreta em dias.

A crise sanitária estabeleceu um paradoxo global, ao mesmo tempo em que conseguiu paralisar, pelo medo, a humanidade. Com os seus devastadores efeitos, a crise humanitária acendeu um movimento de rompimento, mesmo que parcial, com as antigas estruturas e dinâmicas pessoais e sociais, convencionadamente cristalizadas nos pilares do individualismo e relativismo. E urgiu reconstruir-se diferentes estilos de vida solidárias e formas mais humanas e humanizantes de as pessoas se relacionarem.

A chegada da COVID-19 reacendeu, em grande parte, nas pessoas o princípio de alteridade que culminou em solidariedade e tornou-se a parte e o todo, gerando ciclos e motivando mobilizações diversas, desde campanhas para ajudar pessoas em estado de vulnerabilidade e desigualdade de saúde física, social, psíquica, até mesmo campanhas na distribuição de alimentos, doação de produtos de higiene, atendimentos profissionais gratuitos; inúmeras campanhas e ações de solidariedade se espalharam pelo Planeta.

No grave cenário de eclosão da pandemia, o enfrentamento da COVID-19 pela solidariedade só obteve sucesso porque muitas iniciativas comportavam aspectos de cooperação e colaboração, um status social humano e não de natureza contratual – mercantil; uma exigência sobretudo moral e ética. O fator solidariedade como dádiva sem espera de retribuição equivalente atraiu a atenção da população em meio a uma crise humanitária, pois nela não existiu nenhuma certeza, nem garantia de que haverá um retorno pela ação praticada.

Ações solidárias aconteceram, umas foram iniciadas, outras se fortaleceram, algumas foram idealizadas e, criativamente, outras serão elaboradas. Para terem a mesma eficácia será necessário reascender em cada ação o dar, receber sem a expectativa de retorno equivalente, e receber sem a obrigação da contrapartida, paradoxalmente, com uma certa liberdade. Assim, a solidariedade terá ações solidárias livres e coletivas, como a matriz universal de qualquer sociabilidade humana.

De fato, a solidariedade contagiou as pessoas, independentemente das razões que a sustentavam; ser solidário em tempo de pandemia tomou destaque, permanece em alta e saiu do papel e de falas utópicas. Contudo, deve-se considerar que a solidariedade, como qualidade humana, está sujeita às limitações próprias do humano e a seus condicionamentos sociais, e assumir uma “roupagem” de bons sentimentos pode ser um fator de risco para as pessoas. O ciclo da generosidade e reciprocidade pode assumir uma direção de poder e violência que caracterizam os regimes do capitalismo autoritário e selvagem, pois aquele que recebe o gesto solidário contrai forçosamente uma dívida, que gera devedores, e isso pode gerar autoritarismo e submissão, que anula o outro e o domina por meio da suposta dívida.

No cenário da COVID-19, muitas ações solidárias puderam ultrapassar alguns limites humanos e fronteiras da lógica mercantil, considerados instransponíveis, mesmo que timidamente diante da conjuntura mundial, mas com grande repercussão e valor para o exercício da dádiva solidária. Daí a importância de que a pessoa isoladamente assuma o compromisso do bem comum solidário, e seja capaz de sensibilizar outros pares a terem a mesma responsabilidade e compromisso. Impregnados no pessoal atuam coletivamente.

A realidade pandêmica da COVID-19 como um fato social total é desafiante, mas favorece singulares possibilidades em nosso tempo, o que pode gerar um tempo novo de se reflorescer diferentes humanidades e sociabilidades, por meio das ações nobres de solidariedade que se entrelaçam e dão uma forma na tessitura social de aldeia global ligada por elos frágeis que devem ser sempre reafirmados e ressignificados.

A solidariedade relacional como dádiva teve um patamar concreto e promissor com o Pacto Global das Nações Unidas, eis que houve uma grande iniciativa corporativa de sustentabilidade social em forma de preocupação, responsabilidade e cooperação internacional. Este Pacto incentiva os líderes empresariais de todos os lugares, bem como as comunidades e grupos, a se unirem para apoiar as pessoas coletivamente e os negócios afetados pela proliferação do SARS-CoV-2.

A sustentabilidade social poderá manter a solidariedade relacional como dádiva, por implicar a garantia, de forma equivalente e complementar, de que os recursos que estão sendo usados pelas pessoas no momento de pandemia serão suficientes para as gerações futuras, sem prejuízo a pessoas, à sociedade, à ecologia e à economia. Pensar em sustentabilidade é considerar a continuidade da ecologia humana, por uma solidariedade que ultrapasse o resolver problemas, como é o caso da pandemia.

Diante da vertiginosa pandemia, é possível repensar sobre o nosso modo de viver individualista e egoísta. Urge rever aspectos sociais, econômicos e ambientais, com o objetivo de estabelecermos, então, uma rede de sustentabilidade social; redes éticas que sustentem ações solidárias e abram novos caminhos para que sejam reduzidas as enormes desigualdades, o racismo estrutural, e que auxiliem a ampliar a democracia, por meio de reforma política, lançando as bases para o desenvolvimento sustentável. A solidariedade é um bom caminho, já iniciado, para mudar as estruturas e dinâmicas de ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres.

Quando cessarem os contágios, quando for controlada a ferocidade do vírus – por meio de vacinas –, quando aumentar a imunidade da população e a doença perder a soberania, será que a humanidade poderá efetivar a reinvenção pessoal e social solidárias, já iniciada no tempo pandêmico? E, ainda, será possível tornar mais efetiva a reconstrução e manutenção de novos padrões solidários que poderão permanecer de forma ética e duradoura?

Diante dos questionamentos sobre o pós-pandemia e a solidariedade, prefiro me sustentar pela natureza, que me ensina que, depois de um período de mortes, com todas as suas consequências e implicações, em geral, tende haver uma explosão de vida, promovida, em grande parte, pela permanência e (res)surgimento de ações solidárias, como flores que despontam no início da primavera depois de um rigoroso inverno, porque o que as mantinha vivas permanece.

A companhia da solidariedade como dádiva, no tempo pandêmico e pós, maior que princípio altruísta, caritativo e cooperativo, é promissora possibilidade no empenho em reorientar a humanidade a encarar a vida em toda a sua beleza e qualidade; e, ainda, fortalecer um paradigma humano e humanizante de relações, viver que transcende, que transita pelos caminhos da ética.

A solidariedade como dádiva é um recurso importante e urgente no enfrentamento desta crise pandêmica, pois colabora para evidenciar os atributos humanos desejados por meio da colaboração, cooperação, partilha, sentido de vida e, principalmente, nas relações baseadas na gratuidade e na experiência da dádiva. Talvez a solidariedade seja mais necessária quando a pandemia da COVID-19 passar, porque a pós-pandemia não será a manutenção e defesa da vida, mas o “para quê” viver.

Não sabemos se a explosão solidária terá o mesmo vigor no pós-pandemia, ou mesmo se as ações solidárias continuarão a ser exercidas, nem se elas conseguirão atingir a totalidade das camadas sociais, ou, ainda, se foram utilizadas somente em vista do bem comum. O que sabemos é que uma cultura não se muda do dia para noite, e que, no cenário pandêmico da COVID-19, a humanidade está experimentando diversas formas de solidariedade como dádiva, como um precioso recurso. Recurso que reascendeu e motivou, em grande parte das pessoas e organismos sociais e governamentais na maioria dos países do Planeta, inúmeras ações concretas éticas e sustentáveis, com a finalidade direcionada de defender, proteger e preservar a vida humana.

Um elo comparativo poderia se estabelecer com a belíssima poesia “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, um poeta com forte engajamento social e preocupado com a humanidade e a sustentabilidade social.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu...É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio [33].

Agradecimentos

A todos os pesquisadores, professores e profissionais da saúde que enfrentam com solidariedade a pandemia da COVID-19.

Conflitos de interesse: declaro que não há nenhum conflito de interesses no artigo intitulado: “Enfrentar com solidariedade a COVID-19”.

Fontes de financiamento: nenhuma fonte de financiamento externa. Investigação realizada com recursos próprios.

Literatura citada

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